1. Introdução: quando a propaganda deixa de ser “anúncio” e vira experiência
A publicidade tradicional já é altamente persuasiva. Mas, no metaverso e em ambientes imersivos, ela muda de natureza: não aparece apenas como banner ou vídeo. Ela vira cenário, jogo, missão, recompensa e até parte do “mundo” em que a criança está inserida.
Isso torna o marketing mais difícil de identificar e, ao mesmo tempo, mais eficiente para influenciar comportamento. E quando o público é infantil, a discussão jurídica é ainda mais séria: crianças não têm o mesmo nível de compreensão crítica para separar entretenimento e estímulo de consumo.
Em 2026, o ponto central é este: marcas podem usar avatares, experiências e recompensas para induzir compra infantil? A resposta jurídica tende a ser restritiva, porque o Brasil já adota uma proteção forte contra publicidade direcionada a crianças.
2. Por que o metaverso aumenta o risco de publicidade abusiva
No metaverso, o anúncio não precisa dizer “compre agora”. Ele pode funcionar de forma indireta, por meio de:
personagens carismáticos, itens virtuais desejáveis, skins exclusivas, moedas do jogo, desafios patrocinados, recompensas por interação com a marca e eventos “temáticos” dentro da plataforma.
O problema é que isso pode gerar uma publicidade praticamente invisível, mas altamente eficaz. A criança não percebe que está sendo induzida. Ela sente que está apenas “brincando”.
E é exatamente aí que a restrição jurídica se fortalece: se a criança não consegue identificar a natureza comercial da mensagem, a prática se aproxima de manipulação.
3. O que o Direito brasileiro entende como publicidade infantil abusiva
O Brasil trata a publicidade infantil com rigor porque parte de uma premissa clara: criança é hipervulnerável.
Isso significa que estratégias voltadas diretamente ao público infantil tendem a ser consideradas abusivas quando exploram:
inexperiência, falta de julgamento crítico, desejo de pertencimento, recompensas emocionais e pressão social.
No metaverso, isso pode acontecer de forma ainda mais intensa, porque o ambiente é desenhado para gerar engajamento e permanência. O consumo deixa de ser um ato consciente e vira parte da dinâmica do jogo.
Além disso, quando a marca utiliza influenciadores mirins, avatares “amigáveis” e linguagem infantil para promover produtos, o risco jurídico aumenta, pois o direcionamento fica explícito.
4. Avatar, skin e item virtual: isso também é publicidade?
Sim. O fato de o objeto ser digital não elimina a natureza comercial da prática.
Se a plataforma ou a marca cria um item desejável que estimula compra, assinatura ou gasto recorrente, existe publicidade e existe relação de consumo. O “produto” pode ser uma skin, um passe de batalha, uma moeda virtual ou um item cosmético — mas o efeito é o mesmo: indução ao consumo.
A diferença é que, para crianças, esse estímulo pode ser ainda mais poderoso, porque se conecta com identidade, pertencimento e status social dentro do jogo.
E quando a compra é apresentada como “necessária para jogar melhor”, o risco de abusividade se agrava.
5. Responsabilidade: é só da marca ou também da plataforma?
Esse é um ponto prático importante: muitas empresas tentam terceirizar a responsabilidade.
A marca diz que “só patrocinou”. A plataforma diz que “só hospeda”. O influenciador diz que “só divulgou”.
Mas, no Direito do Consumidor, existe espaço relevante para responsabilização conjunta quando há cadeia de fornecimento e benefício econômico com a prática. Se todos ganham com a publicidade, todos podem responder.
Além disso, plataformas têm dever de segurança e dever de prevenção, especialmente quando operam em ambiente sabidamente frequentado por menores.
Em 2026, a tendência é que esse debate se intensifique: quanto mais imersivo e persuasivo o marketing, maior a exigência de controle e transparência.
6. LGPD e dados de crianças: o marketing não pode ser baseado em rastreamento livre
Publicidade imersiva costuma depender de dados. E no caso de crianças, isso é altamente sensível.
Se o metaverso coleta informações de comportamento, tempo de permanência, preferências, interações e padrões de compra para direcionar publicidade, isso pode gerar conflito direto com os princípios da LGPD, especialmente no tratamento de dados de menores.
A regra é clara: criança não pode ser tratada como “alvo de perfilamento” para maximizar consumo.
Mesmo quando há consentimento, ele precisa ser legítimo, verificável e voltado ao melhor interesse da criança, o que torna o marketing comportamental infantil juridicamente frágil.
7. Conclusão: no metaverso, a publicidade infantil pode ser mais perigosa — e a lei tende a ser mais dura
A publicidade infantil já é limitada no Brasil. No metaverso, o risco aumenta porque a propaganda vira experiência, se mistura com diversão e deixa de ser identificável.
Quando o anúncio é invisível, a manipulação é maior. E quando o público é criança, a resposta jurídica tende a ser restritiva.
Em 2026, marcas e plataformas precisam entender um ponto básico: inovação tecnológica não autoriza exploração comercial da hipervulnerabilidade infantil.
No metaverso, não basta dizer que é “só um jogo”. Se há indução ao consumo infantil, há responsabilidade.